Português não é a única língua oficial em Portugal...

Além do Português, Portugal tem oficialmente outra língua, o Mirandês.
Curso gratuito de língua e cultura mirandesa

O Mirandês é falado por cerca de 15 mil pessoas numa "área de aproximadamente 500 quilómetros quadrados, a sudeste do distrito de Bragança, ao longo da fronteira com a Espanha, abrangendo o concelho de Miranda do Douro e uma parte do de Vimioso", escreve Júlio Meirinhos, natural daquela região, na fundamentação do projecto de lei.

Nem português nem castelhano, nem sequer uma mistura dos dois, o mirandês é uma derivação do asturo-leonês, vestígio histórico dos tempos anteriores à fundação nacional, quando aquela região fazia parte do Reino de Leão. O isolamento do resto do país e o facto de não pertencer a Espanha permitiu a sobrevivência do mirandês, quando o castelhano e o português se impuseram como as línguas dominantes.
"Embora o mirandês tenha evoluído de uma forma própria, é evidente a sua filiação no asturo-leonês", disse ao Público Domingos Raposo, que ensina mirandês na Escola EB2 de Miranda do Douro.

Foi Leite de Vasconcelos que revelou oficialmente a existência do mirandês, em 1882, e que fez os primeiros estudos sobre esta língua. Mas o falar de Miranda permaneceu envergonhado - "a língua do campo, do lar e do amor", como dizia Leite de Vasconcelos – durante muitos anos.

O "chaco" e o "fidalgo"
Na região, só as gentes das aldeias o continuaram a falar, enquanto em Miranda do Douro, a sede do concelho, se adoptava a "língua fidalga" (o português). O mirandês era o "chaco" (lê-se tch), palavra associada "a uma coisa baixa, à vergonha", explica Júlio Meirinhos.

Mas sempre houve quem lutasse pela afirmação das populações da Terra de Miranda, reclamando o reconhecimento oficial de uma língua que hoje continua a ser usada pelos habitantes de aldeias como Fonte de Aldeia, Duas Igrejas, Freixiosa, Vila Chã ou Palaçoulo.
 O Padre António Mourinho é a referência mítica dessa luta – o dia do seu aniversário, 14 de Fevereiro, vai mesmo ser comemorado em 1999 com um congresso em Miranda do Douro, anunciou o vereador da Cultura da autarquia local, António Carção.

No ano lectivo de 1985/86, um despacho do Ministério da Educação autorizou "a inclusão, a título facultativo, no plano curricular do 5º ano de escolaridade, da disciplina de língua mirandesa". Mas não há programa oficial, nem material didáctico e o ensino foi completamente entregue ao professor Domingos Raposo. Com a aprovação deste projecto de lei, no entanto, "é reconhecido o direito da criança à aprendizagem do mirandês nas escolas do município de Miranda do Douro. No ano lectivo passado, 40 dos 86 alunos da Escola EB2 de Miranda do Douro, dos 5º e 6º anos, estavam matriculados na disciplina."

"Eiterna i nobre hardança"
"Traz os Montes", da cantora Né Ladeiras, natural de Trás-os-Montes, levou o conhecimento do mirandês ao grande público. Ao ouvir Né cantar "Perlimpinchim" – uma canção de embalar que uma "rapaza" da delegação de Miranda do Douro deverá cantar hoje na Assembleia da República –, os puristas franzem o nariz (há dogmas que se devem respeitar ...). Mas é inegável a contribuição deste trabalho para a divulgação de uma língua que a própria União Europeia reconhece, ao incluí-la numa lista de outras em extinção. O mirandês ocupa o 34º lugar num "ranking" de 48, integrando o grupo das que se encontram em maior risco de desaparecimento.

A "lhéngua" mirandesa, profundamente enraizada na vivência rural das populações do planalto mirandês, inclui-se na antiga comunidade linguistica das "hablas lionesas" (falas leonesas), descendentes do latim popular mas assimilou no seu léxico elementos do galego, do castelhano e do português, possuindo embora uma terminologia e fonética próprias, carregadas de musicalidade. Como escreveu o Padre Mourinho:
"Ah! Fala nuôssa i siêmpre biba
La mais rica, eiterna i nobre hardança
Qu'na beisos de criança
Me dórun cul pan negro
Mius pais i mius abós
Falai-la, mius armanos.
Guardai-la!...
Stimai-la! ...
Amai-la!...
Fazei-la bibir an bós!...
Pus s'eilha se bai morrendo
Nun ajudeis a anterrá-la."

A sobrevivência desta língua dependerá do modo como as novas gerações souberem acrescentar as suas próprias vivências às dos seus antepassados; do cultivo de uma literatura mirandesa e da perpetuação dos elos que a unem à música. Questão complexa que levanta dificuldades e polémicas de vária ordem pois são as populações que renegam as origens (e consequentemente a sua língua, de que muitos se envergonham), e abandonam as aldeias. Há também o problema dos dialectos secundários: a "lhéngua" que se fala em Sendim é diferente da que se fala em Fonte de Aldeia, distando as duas localidades meia dúzia de quilómetros.

Convenção Ortográfica
Por este motivo, um grupo de investigadores universitários da área da linguistica- como Manuela Barros Ferreira, Ivo de Castro e Rita Marquilhas, da Faculdade de Letras de Lisboa, Cristina Martins daUniversidade de Coimbra, António Bárbolo Alves, da Universidade do Minho, e Domingos Raposo - elaborou já uma Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa.

Sendo inquestionável a importância de personalidades como as do Padre Mourinho, falecido em 1995, ou, presentemente, de Domingos Raposo, na recolha, estudo e preservação de espécimes linguísticos arcaicos, não será menos importante a forma como os mais novos souberem revificar os alicerces, acrescentando novos termos e novas sonoridades ao mirandês original.

Importâncias que as gentes de Miranda irão orgulhosamente cantar:
"Oupa riba! ...
Para siempre biba
La lhéngua mirandesa!"

Brasil é único
O Brasil é o único país da CPLP que tem constitucionalmente apenas uma língua oficial, o Português. Embora existam em algumas regiões ou cidades, como Pomerode-SC uma língua co-oficial, neste caso o Alemão.

Mas de onde vêm a Língua Portuguesa?
A língua portuguesa é uma língua românica. Tal como outras línguas deste grupo, o Português é um descendente directo do Latim – a língua vernácula dos soldados e colonizadores romanos e não tanto do Latim clássico dos cidadãos romanos mais cultos. Desenvolveu-se na antiga Galécia (actual Galiza, na região noroeste de Espanha) e no norte de Portugal, tendo-se difundido posteriormente para o território que é hoje Portugal.

A língua portuguesa deve a sua importância (enquanto segunda maior língua latina mais falada, depois do Espanhol, em termos de número de falantes) sobretudo ao facto de ser a língua oficial do Brasil.

Em todo o mundo existem cerca de 200 milhões de falantes nativos de português, o que a torna a terceira língua europeia mais falada. Para além dos próprios portugueses, a língua é também falada em algumas regiões de África, incluindo Angola, Cabo Verde, Moçambique e Guiné-Bissau, bem como em Timor-leste, na Ásia. É ainda a língua oficial do arquipélago de São Tomé e Príncipe, no Golfo da Guiné.

Existem cinco grandes grupos dialectais em Portugal: (1) Nortenho (2) Centro-meridional, (3) Sul (incluindo Lisboa, Alentejo e Algarve), (4) Insular (incluindo os dialectos da Madeira e dos Açores) e (5) Brasileiro.

O sistema fonético português tem algumas peculiaridades, como é o caso das vogais nasais, indicadas na ortografia pelas consoantes “m” ou “n” a seguir às vogais (por exemplo, “sim” e “bem”), ou pelo uso do til (~) sobre vogais (“mão”, “nação”).

O Português é uma língua encantadora, muitas vezes descrita como sendo doce e melodiosa por várias personalidades da literatura europeia.

"Não há uma língua portuguesa, há línguas em português"
José Saramago

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